Estes dias e por razões óbvias, não consigo deixar de pensar naquilo que vou estudando e lendo. Embora, tentando proteger-me e salva guardar uma certa saúde cerebral, porque de facto passam muitas páginas pelas mãos, na verdade sinto que sou afectado pelo que estudo. E interrogo-me sobre quem será Deus.
Não vale a pena fazer aqui um elenco das variadíssimas imagens de Deus que encontramos ao longo da história. Não teria paciência e vocês muito menos. Sinto no entanto, que da resposta que eu der, estará dependente a forma como me situo na vida e na minha relação com as pessoas. E, acredito que isso fará uma enorme diferença.
Numa das tais leituras, fiquei várias vezes sobre a visão que S. Paulo tinha da vida. Por ele que não tinha mais do que uma cordialidade forçada, agora sinto-me curioso por aquilo que deixou escrito. Mas, dizia ele que mais importante que um cumprimento de uma norma ou de um dever, é a graça que se experimenta de uma relação pessoal com Deus. Uma vez que a lei, quando cumprida de forma exímia, poderá ter o sério perigo de endurecer uma pessoa ao ponto de roubar-lhe uma visão limpa e agradecida sobre a vida e sobre os outros. Confesso que ainda não percebi o alcance destas afirmações.
Com tudo isto, que tem tanto de confuso como de leveza, pergunto-me sobre o modo como somos chamados a estar na vida. Por exemplo, que diferença fará entre ter um dia exemplarmente vivido ou ter um dia vivido aos trambolhões. Haverá por aí algum livro de ponto ou uma folha de serviço que vá transformando a minha fidelidade em créditos que reverterão em graus de santidade? Arrumar o quarto, vinte créditos e meio. Rezar sem distracções e em gratuidade, cinquenta créditos. Sorrir sempre, setenta e cinco créditos. Dar conselhos prudentes e discernidos, cento e vinte créditos. Tomar um copo na Latina em Madrid, um crédito e meio.
Como apreciamos e valorizamos o dia diante de Deus? Que importância damos aos momentos, ditos não sagrados? Com que critérios nos vemos?
Mas, gostava de ir mais fundo. Refiro-me concretamente ao modo como propomos a experiência de Deus nos dias de hoje. E de facto, a figura do sacerdote (e não só) desempenha um papel importante neste sentido na medida em que apresenta e propõe a figura de Deus. Sinto que pode existir o perigo de para justificar os momentos do dia, ditos não sagrados, se tenha que dizer “é apostólico”. Um padre numa esplanada a conversar com uma rapariga, terá às vezes de levar uma legenda “conversa espiritual” caso contrário poderá ser mal interpretado tanto pelos fora, como essencialmente para o próprio padre como se ele se sentisse na obrigação de justificar-se. E por aqui, poderíamos falar do modo como estamos, como se tudo tivesse que ter um retorno e um efeito apostólico. E isto pode roubar a gratuidade das relações. Nomeadamente no mundo das relações de um padre.
Curiosamente senti-me motivado pela Igreja quando precisamente senti da parte dela uma relação desinteressada. Ou seja, quando não senti que me queriam vender, subtilmente, um "produto".
E com tudo isto que escrevi de ideias bastante soltas e desordenadas penso no modo como nos situamos e propomos a relação com Deus. Embora tenha dito pouco, gostava de deixar uma interrogação e que podes responder através da caixa de comentários e se preferires de forma anónima, caso te sintas mais à vontade.
Que esperas de um padre?
Quinta-feira, Novembro 05, 2009
Uma pergunta
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18 comentários:
Respondendo directamente à pergunta, para mim um padre tem que ser... um bom condutor! Bom condutor em que sentido?-perguntam-me vocês. Nos dois, respondo eu. Um bom condutor de massas, conhecendo bem a máquina, as regras de trânsito, o caminho. Com capacidade para se adaptar a todo o tipo de terreno e de se desviar ou ultrapassar os obstáculos que inevitávelmente surgem. Espero então que um bom padre seja um todo o terreno (e de preferência com tracção às quatro rodas, já que o percurso por vezes é bem acidentado!). Aqui pode entrar essa definição de S.Paulo. Cumprir à risca o código da estrada pode fazer-nos perder pelo caminho.Se estamos em TT, conhecer bem o que se conduz é muito mais importante que cumprir regras (que fora da "estrada"até podem parecer absurdas)...
Mas acima de tudo, um padre tem que ser um bom condutor ele mesmo, não da energia eléctrica,mas da energia divina.Deixar passar Deus com o minimo "ruído" possivel, como afinal e mais uma vez, dizia S.Paulo: já não sou eu quem vive, mas Deus que vive em mim!
Muitos padres têm marcado a minha vida: uns porque deixam passar a sabedoria de Deus, outros a sua humildade e outros ainda a sua imensa alegria. Talvez estes sejam os que menos esqueço...
Não espero que seja perfeito.
O que eu espero de um padre é que não fale de um Deus como se fosse uma cassete em 2ªmão; que não caia na tentação de ser sempre "religiosamente correcto"; que seja peregrino com os peregrinos; que a sua pessoa diga mais do que as suas palavras.
ABRAÇO!
Deli.
Olá!!
O que eu desejo de um padre é que seja profundamente humano. As vezes dão-se ares de tão especiais que perdem todo o "interesse". Dão conselhos, falam, mas não vivem e não admitem isso.
Por isso desejo que o padre seja simplesmente homem normal e que o admita, com simplicidade. Isso facilitarnos-ia o caminho a todos. Aliás, levaria muitos mais à Igreja. Porque ver pessoas "normais", humanas e que no meio das fraquezas e incapacidades continuam no caminho, continuam a buscar a Deus. Isso sim, interpela-me.
Olá!!
O que eu desejo de um padre é que seja profundamente humano. As vezes dão-se ares de tão especiais que perdem todo o "interesse". Dão conselhos, falam, mas não vivem e não admitem isso.
Por isso desejo que o padre seja simplesmente homem normal e que o admita, com simplicidade. Isso facilitarnos-ia o caminho a todos. Aliás, levaria muitos mais à Igreja. Porque ver pessoas "normais", humanas e que no meio das fraquezas e incapacidades continuam no caminho, continuam a buscar a Deus. Isso sim, interpela-me.
Grande reflexão Nuno! Um desafio enorme.
Respondendo à pergunta, o grande chamamento que sinto como padre, o que se espera dele é: verdadeiro no seu modo de estar e de se relacionar, que dê esperança através da alegria que manifesta.
Obrigado e grande abraço
Bem difícil esta questão!
Não quis responder logo, porque achei que se era colocada é porque seriam muito importantes as respostas dadas.
Curiosamente,pensei que primeiro tem de ser verdadeiro no seu modo de viver e assim interpelar os que o rodeiam.Depois é excelente se for alegre, humilde,inspirar confiança,acessivel,ter o dom do aconselhamento quando alguém o procurar nesse sentido e nas suas intervenções públicas, nomeadamente nas homílias ser capaz de captar a atenção de quem o escuta,com palavras úteis para a vida não esquecendo que há muitos católicos que não lêem a Bíblia nem têm acesso a outros meios de divulgação da palavra de Deus. Também acho que o padre tem de ter a preocupação de imitar Jesus e nesse imitar tem de organizar a sua vida de modo a ter disponibilidade de tempo e de coração para quem o procura.
A terminar acrescento que no meu regresso à igreja,foi a homília de um padre que escutei num dia em que entrei "por acaso" numa igreja, que me interpelou de tal modo que parecia que aquelas palavras me eram dirigidas directamente.Mesmo sendo verão e eu ter verdadeira paixão pelo mar,houve sábados em que faltei à praia para ir à missa e isto durante um mês!
Um abraço com votos d eque tudo aí em Madrid dê certo
Alguém em quem se possa confiar e a quem se possa abrir o coração. Portanto, deve ser «manso e humilde de coração». Porque para mim o mais difícil é a confiança na abertura do coração a alguém, e estas duas (mansidão e humildade) são as mais importantes para me aproximar de um padre.
Acho que as novas gerações de SJs tem um aspecto que acho muito bom e que é dar testemunho pessoal de vida. Isso ajuda a torna-vos mais próximos de quem tem medo de se abrir.
Só como testemunho pessoal, a experiência mais marcante com um padre, para mim, foi a do perdão no sacramento da Misericórdia. Porque é pessoal e íntimo e porque o próprio padre perdoa e passa por ele a Misericórdia de Deus. «A quem perdoares ser-lhe-á perdoado». Foi a experiência mais marcante a seguir à conversão. É tão fácil abrir a boca e tão difícil abrir o coração! É isto que me torna luz do mundo!
Sabendo que um padre é uma pessoa igual a todas as outras não consigo de deixar de procurar nele um exemplo.
Distinga-se exemplo de perfeição.
Alguém que fez uma opção ousada, e transmite paz e alegria.
Basicamente isto...
Espero que o padre me ajude a fazer a ligação a Deus,quando sozinha não consigo ou desanimo, me ajude a estar em comunhão com a comunidade onde estou, me ajude a sentir o abraço de Deus no sacramento da reconciliação,
um abraço
beatriz
O que eu espero de um padre?
Disponibilidade.
Disponibilidade de tempo mas também predisposição para estar com as pessoas. Quando alguém sente que precisa de ser ouvida sem julgamentos é no padre que deveria pensar.
Moro numa paróquia em que a Igreja fecha Domingo da parte da tarde e para falar com o padre tem que ser por marcação.
Que viva e transmita a alegria de ter encontrado "O Amor".
Que viva cada momento "banal" de forma apaixonada, com a liberdade e a naturalidade de quem foi escolhido para ser "canal" da Graça de Deus estando ele próprio mergulhado nesse Amor.
Ainda segundo o saudoso Papa, João Paulo II, na sua Exortação Apostólica Pastores Dabo Vobis - “Dar-vos-ei Pastores segundo o meu Coração” (Jr 3,15). O Padre tem que possuir 5 qualidades essenciais:
1° Ser homem, física e psicologicamente, sadio;
2° Ser pessoa de oração, portanto piedoso. Pietas, em latim, significa um devotamento filial aos pais. O Padre deve ter um afeto filial, carinhoso para com Deus, nosso Pai, e é a partir desse modelo, que ele vai buscar a delicadeza paterna, e materna, que demonstrará na sua experiência humana de diálogo com o mundo de hoje, homens e mulheres do nosso tempo.
3° Ser uma pessoa culta. A formação intelectual de um Padre exige um mínimo de 7 anos de estudos universitários, incluindo as Faculdades de Filosofia e de Teologia, além da comprovada competência pastoral.
4° Ser um verdadeiro pastor. Deve conhecer os problemas que se abatem sobre a humanidade, para dar a resposta pastoral necessária, dentro de uma visão eclesial coerente.
5° Ser um elemento de equipa, que saiba viver em comunidade e para a comunidade. Que nunca trabalhe só, a não ser nas coisas do trato direto com Deus. Tudo o mais seja feito em conjunto com a comunidade a que ele serve. Isto exige afabilidade, equilíbrio e capacidade de diálogo.
Como seguidores de Cristo, os Apóstolos tiveram que deixar tudo: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a mim, não é digno de mim. Quem ama seu filho mais que a mim, não é digno de mim” (Mt 10,37). Trata-se da doação integral da pessoa e da sua capacidade de amar, para que Cristo dela disponha em favor dos mais necessitados: os pobres, os pecadores, os que sofrem de múltiplas carências, os que nos procuram para aconselhamento. Para estar disponível a tudo isto, permanentemente, é preciso ter um amor exclusivo. São Paulo diz, claramente: “O solteiro cuida das coisas que são do Senhor, de como agradar ao Senhor. O casado preocupa-se com as coisas do mundo, procurando agradar à sua esposa” (1Cor 7,32-33). Portanto, tem um coração dividido
Deus é Amor é levar esse atributo a todos, sem excepção, é em síntese Servir e não ser Servido....
Espero que seja uma pessoa comum, normal, cheia de compaixão e próxima.
Além disso, julgo que o padre deve ter sabedoria e conhecimento (essencial para poder ensinar aos outros, porque o padre é um professor/orientador), sensibilidade para se deixar "tocar" pelos outros e pelas situações da vida (porque a sua vida é uma entrega a Deus e aos outros, com os limites humanos inerentes), humildade porque é impossível uma vida sem falhas e,ainda, equilibrio, porque não é fácil ser padre ou seguir aquilo que Deus quer que sigamos - (se é que conseguimos identificar o que Ele quer de nós em todos os dias da nossa vida)- no nosso mundo, onde, muitas vezes, quem muito se entrega e se dá acaba por sofrer mais ou desequilibrar-se a si próprio.
Já agora, deixo também uma questão que pode parecer egoísta (e se calhar até é), mas que julgo necessária (e sem hipocrisia) e ninguém melhor que um padre saberá responder: será que a pessoa pode/deve dar e entregar-se sem limites sem acabar por entrar em "falência", já que temos limites (humanos)e por exemplo quando se dá muito e não se recebe tanto, às vezes ficamos tristes ou sentimos que gostariamos também de ter recebido algo de alguém ou não fomos correspondidos (sem ser necessário haver uma relação de troca directa e proporcional, obviamente). A questão é a de saber se, em última análise, para nos entregarmos também não haverá que manter um certo equilibrio para não se ir além do que são os limites humanos? o que acham? Um padre tem esta dúvida?
Obrigada e bjs
O que é que eu espero de um padre, Nuno?
Tão somente aquilo que esse padre me puder dar! Uma fé confiante que se traduza na alegria de viver com sentido. Consegue? Jesus não desistirá de si!
Gosto muito das vossas partilhas. Ajudam-nos a encontrar aquele Deus que escolheu ser pequenino para mostrar a sua grandeza.
Rezo por vós
Bj
PS: Não dê por perdidas as horas que passa à volta dos livros. São os nossos melhores mestres: têm uma disponibilidade e uma paciência infinitas...
Que saiba escutar! cada vez se torna mais dificil encontrar pessoas, mesmo entre aquelas a quem chamamos de amigas, que tenha essa capacidade de ouvir a pessoa à sua frente. Mesmo que seja durante um curto período de tempo, o tempo de uma conversa! eu, pessoalmente, sinto bastante essa falta de alguém que seja capaz de estar para mim, que por um momento me preste atenção a mim, ao que eu tenha a dizer. Às vezes custa tentar sê-lo para os outros e não sentir esse esforço da parte de ninguém.E acho que deve ser uma das caracteristicas especiais dos padres. ser capaz de ouvir e amar a pessoa colocada à sua frente, como faria Deus Pai. Admiro imenso o vosso trabalho e o vosso blog. :)
Maria
Que saiba escutar! cada vez se torna mais dificil encontrar pessoas, mesmo entre aquelas a quem chamamos de amigas, que tenha essa capacidade de ouvir a pessoa à sua frente. Mesmo que seja durante um curto período de tempo, o tempo de uma conversa! eu, pessoalmente, sinto bastante essa falta de alguém que seja capaz de estar para mim, que por um momento me preste atenção a mim, ao que eu tenha a dizer. Às vezes custa tentar sê-lo para os outros e não sentir esse esforço da parte de ninguém.E acho que deve ser uma das caracteristicas especiais dos padres. ser capaz de ouvir e amar a pessoa colocada à sua frente, como faria Deus Pai. Admiro imenso o vosso trabalho e o vosso blog. :)
Maria
Olá a todos! Antes de mais nada agradecer esta conversa e mais ainda, a sinceridade. Acho que é muito importante existir confiança suficiente para poder falar do que se sente e do que vive.
De tudo aquilo que disseram, à partida muito variado, a mim toca-me particularmente este sentido de relação horizontal entre todos que fazemos parte da Igreja. Acho que é um ideal cheio de possibilidades de concretizar-se. Pior seria, e o perigo está à espreita, embora se vá sentido melhorias, que existisse uma relação de verticalidade em que o padre vive numa atitude de quem está sempre no ambão. Talvez ele nem sempre saiba para quem fala ou a que realidade concreta se dirige. Fica sem conhecer, fica de fora, ausenta-se, não se implica e não se mistura.
Eu acho que é importante esta conversa, não no sentido de um conjunto de exigências que nos são pedidas, porque daí poderiam ocorrer duas atitudes: 1) ver o que falta e apoiar-se na limitação ou 2) acreditar que com o meu voluntarismo poderia lá chegar e encher-se de auto-suficiência; mas, mais no sentido de que o seguimento está apoiado no Senhor, Ele é o protagonista, e será Ele que com a nossa disposição poderá fazer de quem quer que seja, seu mediador. E isso não poderá expressar de outra maneira, a não ser por aquilo que foram dizendo.
E mais uma vez obrigado pelo que foi dito, porque estes comentários ajudam-nos a viver a vocação ao sacerdócio com os pés bem assentes na terra para não embarcarmos numa espiritualidade desencarnada e isenta de humanidade.
Vamos falando... :))
Abraços!
és tu suficientemente frágil para ser padre? só a fragilidade de um ser humano se equipara a fragilidade do outro...
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