Como se detecta uma tentação?

Popularmente a palavra tentação pode estar conotada por um certo sentido fantasioso como expressão de uma acção realizada por uma figura demoníaca. Mais do que isso, pode estar associada a uma dimensão vincada pela sensualidade que se manifesta num jogo de conquista, por exemplo.
Mas, seja como for, a tentação estará marcada por um poder sedutor – personificado pedagogicamente na figura do tentador – que será capaz de despertar numa pessoa a experiência de indecisão.



Um exemplo muito simples. Aconteceu-me há uns dias atrás enquanto estava sentado no sofá a estudar e a ouvir música. Enquanto mergulhava nos intermináveis apontamentos, ocorreram-me várias propostas para fazer uma pausa: “Nuno, hoje é altura indicada para arrumar o quarto!” e ainda um “Porque não dares um grande passeio, pores-te a desenhar, descansas durante a tarde e depois mais logo continuas!”. A avalanche de necessidades e de desejos não terminava, mas aquilo parecia-me tão óbvio que não liguei. Mas, finalmente apareceu ela de novo, a tentação: “Então e porque não um intervalo para dedicares um tempo a Deus?” De facto, este desejo provoca um certo bem-estar, uma vez que nem sempre temos à mão de semear o apetite e a degustação para a oração. Seria de aproveitar este entusiasmo e este fervor. E o meu raciocínio terminava numa conclusão: a oração põe-nos na justa motivação para estudar.
Na altura, perdoem-me a expressão mas estava mesmo apertado com as fotocópias e portanto fechei este ciclone de pensamentos com um “depois do exame cumpro esta lista de necessidades, que agora não dá".

Curiosamente, no dia seguinte – já depois de feito o exame – voltei ao quarto, pousei a mochila e tinha finalmente uma tarde livre à minha frente. Inevitavelmente peguei na lista e de facto apercebi-me que a intensidade do desejo para a realizar era incomparavelmente inferior àquele que me acompanhava em tempo de estudo. O que se terá passado aqui? O que terá provocado este contraste entre um desejo irresistível em tempo de estudo e um desejo desprezível em tempo livre?
De facto, uma tentação por mais minuciosa que seja estará relacionada com o campo da decisão: a pessoa propõe-se a fazer determinada coisa que depois seja pela experiência de ameaça ou de incerteza, sente-se levada a fazer outra. Mas, não poderá acontecer que seja bom mudar o que estava a fazer? Porque é que a mudança teria de ser má?

Para detectar e aferir se se trata ou não de tentação, devemos dar atenção ao percurso dos pensamentos e dos desejos que foram despertados, desde o modo como apareceram até ao lugar aonde prometem levar a pessoa. Trata-se, portanto, de dialogar e perguntar se o percurso deste pensamento me conduz a uma coisa boa ou má, distractiva ou enriquecedora, perturbadora ou pacificadora. O “aonde me leva este desejo” é o critério para trazer à tona de água a intenção oculta. A experiência encarregar-se-á de mostrar que de facto, nós temos esta capacidade para reconhecer o engano e a falácia de determinados desejos ou necessidades.
Agora, resta saber: "desejar rezar pode ser tentação?"

3 comments:

Vítor Mácula disse...

Penso que sim, se rezar fôr um modo de fugir ou fechar-se a realidades imediatas que clamem resolução, ou até a chamamentos de Deus: Moisés parou a oração para acolher a angélica trindade; mas tal como “não rezar” e atarefar-se na realidade imediata também pode ser uma tentação: o discernimento é realmente uma arte extremamente difícil. saudações, bom fim-de-semana.

Anónimo disse...

Faz-me pensar que é como ter muita vontade de pintar um quadro e estar com uma grande inspiração num dia mas estar com tantas tarefas que seja muito difícil de realizar aquilo que mais se gosta de fazer. O que mais me apetece fazer é deixar-me levar. No outro dia a inspiração já não vem da mesma maneira, e toda a vontade se perde.O difícil, às vezes é aceitar que se perdeu o momento passado, mas o presente já é diferente, , e o quadro pode começar por custar, mas a meio estou secalhar ainda mais inspirada ou não, mas o facto é que dá trabalho fazer as coisas boas que mais gostamos também. Dizia-me isto a minha tia ontem que as coisas boas também dão trabalho e que para serem boas devem ter ainda mais trabalho: 10% inspiração, 90% de trabalho e pelo caminho há mais vontade e menos vontade. Talvez todas as distracções aos nossos deveres, mesmo vontade de rezar, poderão prejudicar o tal discernimento.

Maria Seruya

silvino disse...

q grande provocação :) gosto!