A violência dos nossos segredos

Há frases que visitam o nosso coração, como se batessem à porta mas sem a licença para entrar. Parecem ser lanternas intermitentes que visitam a obscuridade mas, que estrategicamente, não se deixam apanhar. E naquele dia em que forem apanhadas, a nossa verdade será iluminada. Não a verdade do mérito, da excelência e da bondade; mas a verdade de um coração humano visitado pela contradição e pela fragilidade.

Dos Homens e dos Deuses, é o filme das catacumbas dos nossos segredos. Não é fácil, nada fácil que alguém nos diga: visita-me. Não se trata de visitar a sala de estar, nem o corredor ou até a desarrumação do quarto. Trata-se de visitar o lugar recôndito e sombrio do que somos. E lá existem alguns compartimentos que nunca foram visitados, não por medo, mas porque o tempo ainda não nos tinha conduzido até lá. Penso que um destes lugares será activado diante da ameaça de morte. Trata-se de uma experiência vivida em solidão e em entrega silenciosa. Neste filme, o realizador quis levar-nos a esta fronteira e espreitar aquilo que se passa no coração de um grupo de monges diante da violenta ameaça de martírio. De facto, a beleza da existência humana está nesta verdade e nesta humanidade marcada pela graça e pelo medo. Que não nos assustemos com a violência dos nossos segredos, porque eles falam da grandeza de que somos feitos.



[Dois monges cistercienses visitam a contradição e a beleza da sua existência. Aceitar o martírio, sim ou não? Ao fundo, a flagelação de Jesus segundo Caravaggio]

5 comments:

Anónimo disse...

Quisemos apagar o eterno,
mas a força do seu silêncio,
obriga-nos a fazer do silêncio
palavra eterna.

Quanto mais vazios,
na carne intensifica-se a presença

concha disse...

Vi o filme numa sala de cinema com mais duas ou três pessoas.Era eu que estava do lado de lá do ecran,com as minhas dúvidas e medos.Acredito que perante a ameaça de morte passamos a ser verdadeiros.Perdemos todas as seguranças e só nos resta uma...Deus.
Um abraço na Paz

João Delicado sj disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
João Delicado sj disse...

"Um destes lugares será activado diante da ameaça de morte": dá que pensar! Quantos lugares teremos dentro de nós ainda por activar?

Por isso é que mais que o mundo exterior (do qual sinto que já tive o privilégio de ver quanto me baste), ando cada vez mais fascinado pelas paisagens a perder de vista do mundo interior!

Anónimo disse...

O encontro com Deus, que procuro muito, é muitas vezes esmagado justamente com as frases que visitam o meu coração e não dou licença para entrar, não assumindo as minhas fraquezas. É uma contradição procurar A VERDADE, mas constantemente não conseguir ser verdadeira. É uma constante culpa por tudo, sem saber nem por onde começar, mas pior é não assumir a minha verdade, que sou humana.

Vou ver o filme e obrigada pelo que escreveu.

Maria