
Se somos criaturas criadas à imagem e semelhança de Deus, isto significa que existe no ser humano uma marca, distintiva de qualquer outro ser vivo, que possibilita o reconhecimento do criador. Não se trata de transportar um sinal, porque de facto não o transportamos. O que somos já é um sinal da presença de Deus.
O problema está em determinar o modo desta presença que se nos escapa.
Quando, por exemplo, dizemos que nos cruzamos com alguém ao inicio da tarde na Avenida da Liberdade, significa como é óbvio que aquela hora tanto eu como a outra pessoa não estávamos em casa. Tanto temporalmente – inicio daquela tarde – como espacialmente – Avenida da Liberdade – podemos circunscrever um determinado encontro. Talvez esta seja um modo: a partir de um encontro humano, tentamos adivinhar como será a presença de Deus. Mas, esta indução poderá trazer um sabor amargo uma vez que nem sempre Deus se deixa encerrar no tempo e no espaço.
Outro exemplo. Quando visito o Museu Nacional do Prado e paro diante de um quadro de Renoir, apercebo-me que há qualquer coisa – o traço da pintura, a representação das figuras – que assinala a presença do pintor francês, embora o que esteja ali seja apenas uma pintura. Talvez seja este, outro modo de querer encontrar Deus: se nós somos suas criaturas, então tal como o quadro de Renoir concluímos que Ele está presente não de modo efectivo, mas representado. Também essa associação pode não ser suficientemente fiel: viver agarrados a marcas ou sinais de autoria de alguém que já não vive entre nós.
Então, como é que descobrimos esse senhor, chamado Deus?
Embora, Deus não se deixe encerrar no tempo e no espaço não significa que eu não possa precisar um encontro quotidiano com Deus. Se é verdade que Ele ultrapassa qualquer experiência humana, não é menos verdade que Ele se dá a conhecer. Mas, parece-me que para decifrar esta presença efectiva e subtil – e também mediada, embora neste caso “Deus-autor” não está somente representado no “quadro-da-criação”, mas efectivamente presente – é necessária uma sensibilidade atenta. Atenta para – à semelhança do profeta Elias – descobrir que Ele não está no “fogo”, nem no tumulto mas na linguagem do “sussurro”. É esta a linguagem quotidiana que habita a própria criação, manifestando-se através de uma marca distintiva e inequívoca de Deus, que traz o aumento de:
1) Fé (capacidade de olhar a história com uma confiança tremenda que ultrapassa o mero atrevimento humano).
2) Esperança (a experiência de intuir um futuro como lugar que não traz ameaça senão a abertura para o sentido).
3) Caridade (de quem se aproxima do outro como resposta a um apelo da bondade e da beleza).
Será este o modo de Deus fazer-se presente?
9 comments:
Tantas vezes, que não sinto a presença de Deus. Acho, que não é porque ELE não esteja, eu é que estou desatenta.
Obrigado pela reflexão.
O que dizes fez-me pensar que comigo por vezes acontece:
- num encontro com o outro sem que nada o justifique,provoca um bem-estar enorme
- num contacto com a natureza que transmite paz.
E ainda quando há uma urgência em realizar algo e sentes que tens de o fazer custe o que custar,mesmo se se trata de uma urgência que aparenta não o ser.
Um abraço com gratidão
faz sentido q seja :)
tanto mais presente quanto mais formos capazes de expressar o nosso ser genuíno.
Na semana passada estava na missa e "atacou-me" um pensamento: "sou um hipócrita! O que é que estou aqui a fazer?". Logo a seguir pensei: "Mas quero tanto estar aqui!". E neste querer não está Deus? Reconheci que sim, só podia! Há já uma parte da minha vontade que é de Deus! Mas não deveria ser assim pelo baptismo? Não está já Deus no meu querê-Lo e desejá-Lo? Parece que estou em gestação para a Vida Eterna!
Quando não sentia a presença de Deus, era quando eu sentia falta de mim mesma, pois Deus Pai está em tudo que nos rodeia. Gostei da postagem.
Lindas suas palavras!
Deus está presente em tudo, basta parar por um segundo e prestar mais atenção.
Nós chamamos tanto por Ele, e Ele nos envia ajuda por meios tão simples que nem percebemos.
Acho que prestamos atenção só no que é complicado e de certa forma nos apegamos a isso e esquecemos como é facil viver.
Nos permitimos cair em depressão e depender de remédios, quando poderíamos usar de nossa saúde para ajudar o próximo.
Que eu possa sentir tambem a presença de Deus http://www.deus.3a2.com
Ola!
Gostaria de saber se posso usar seu texto (com referencias de onde e quem foi o autor enfim, com todos os direitos autorais reservados) ?
Agradeço!
Deus te abençoe!
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