A revelação que a morte nos traz.

Estava sentado diante dela. De mão dada. Mão enfraquecida, pele debilitada mas com força suficiente para segurar a minha. Para dar-me confiança. Não – sussurrei-lhe – não abra os olhos, não se preocupe e descanse. Adivinhava a presença da morte, pensei eu. Adivinhava a presença de Deus, articulava ela. Nunca cheguei a saber o que lhe ia no coração. E nem por ajuda, me atrevia a fazer-lhe qualquer pergunta. Mas... mas, eu trazia uma grande pergunta: o que se passará neste coração que só vive da espera? Que verdade trazemos dentro de nós e que só se revelará com a morte?

Era a última página. Dela. E do livro que agora terminara. Pousara o livro em silêncio. Não porque encontrara a resposta mas por deparar-me com as últimas perguntas feitas por Ivan Ilitch no precioso romance de Lev Tolstoi.


“Chorava a sua impotência, a sua terrível solidão, a crueldade dos homens, a crueldade de Deus, que o abandonava.
Porque me reduziste a isto? Porque me trouxeste ao mundo? Com que fim me martirizas tanto?

Não esperava resposta. E mais chorava porque não havia nem podia haver resposta. A dor fez-se mais aguda, mas não se mexeu, nem chamou ninguém. Depois, sossegou, deixou de chorar, prendeu a respiração, ficou a ouvir atentamente a voz que vinha silenciosamente, a voz da sua alma, a torrente de pensamentos que dentro dele se acumulava.

O que é que tu queres?, foi a primeira coisa que ouviu claramente. O que é que tu queres?, repetiu. E respondeu: o que eu quero é viver. Viver sem sofrer. E começou a repassar na imaginação os melhores momentos da sua vida.
Talvez eu não tenha vivido como deveria, acudiu-lhe de súbito.
E a morte? Onde está? Procurou o seu habitual medo da morte e não o encontrou. Onde está ela? Que morte? Não tinha mais medo, porque também a Morte desaparecera da sua frente. Em lugar dela, viu uma luz. Isto passou-se durante um instante e a significação deste instante não se modificou mais.
Acabou! – disse alguém perto dele. Ele ouviu a palavra e repetiu-a na alma. Acabou a morte. A Morte já não existe!, ainda pensou.

Aspirou profundamente, deteve-se a meio, e morreu.”


2 comments:

FM disse...

O grande mistério da Morte.... Obrigada pela reflexão! Quanto mais aprofundo o conhecimento de Deus e mais o tenho presente na minha vida, melhor percebo este mistério, tudo se torna mais fácil....

silvino disse...

eu continuo cheio de medo :)