Um convento de artistas?

Estava sentado ao computador para programar o fim-de-semana, quando me lembrei por um instante em espreitar as novidades de Montmartre. Por mera coincidência, estava precisamente a começar um evento organizado pela associação ALMA e que eu já o tinha fisgado desde algumas semanas: aqueles artistas incógnitos poisados diariamente na Place du Tertre, em Paris, abririam ao público as portas dos seus ateliers. Para mim, entrar numa casa é sempre um abrir a cortina de um mistério de alguém. Os quadros na parede, as fotografias na estante, a disposição dos sofás. Tudo comunica e revela a história de uma pessoa. Mas, a palavra “atelier” talvez insinue maior intimidade, e por isso maior revelação, que uma sala de estar ou até o próprio quarto. Não consigo encontrar um motivo concreto, mas talvez me sinta fascinado pela desarrumação que este espaço sugere. Desarrumação, não só no sentido de desordem, mas mais do que isso como expressão de algo ainda em construção.

Mas, voltando aos artistas, não sabia sequer que eles vivessem e trabalhassem juntos. Pelos vistos, sim. Na zona limítrofe a norte da cidade, podemos encontrar um edifício dos anos vinte projectado arquitecto Adolphe Thiers com a intenção de alojar e oferecer um lugar de trabalho para (imagem só!) oitenta artistas. E estão lá para todos os gostos: cineastas, escritores, ilustradores, músicos, pintores, fotógrafos e escultores. Não deve ser fácil, viver no meio destes doidos.
Para alguns visitantes aquela tarde, parecia um sábado passado no jardim zoológico na zona de Sete Rios: seres raros, alguns em vias de extinção, enjaulados em cubículos e que faziam malabarismos. Para mim, e desculpem-me lá a imagem talvez viciada, pareceu-me um convento de artistas. A clausura delimitada por cada cubículo em formato mezzanine com o atelier e o respectivo quarto. Os espaços comuns marcados pelas varandas, pelos pátios e pelas salas de exposições. Para além disso, eles falam pouco. Gentilmente, muito gentilmente, abriram as portas mas não têm paciência – e eu também não teria – para tornar devasso aquele espaço.

Com os ateliers que pude visitar, de facto, não tirei os olhos daquela dita “desarrumação”. De facto, não soa bem dizer "o atelier estava desarrumado". Haverá algum que esteja arrumado? A propósito ou a despropósito, fiquei a pensar nos “espaços interiores” da nossa vida, aqueles que raramente são visitados. Algumas vezes desejamo-los como salões de festas, uma vez que desejamos ser universais, hospitaleiros e acolhedores e porque sabemos estar com todos. Outras vezes, transformam-se em escritórios como lugares do discernimento e do uso da razão. Mas, raramente fazemos dos nossos “espaços interiores” lugares de atelier. Lugares de criação, com telas fora do lugar e boiões de tinta a pingar para cima da alcatifa. E estes lugares são verdadeiros, autênticos… são lugares de inédita expressão que revelam o mistério inaudito da nossa interioridade. De facto, estaremos sempre em construção e por isso com aparência de desarrumação. Portanto, não nos espantemos nem ajuizemos o “nosso convento de criação”.

1 comments:

silvino disse...

«Mas, raramente fazemos dos nossos “espaços interiores” lugares de atelier. Lugares de criação, com telas fora do lugar e boiões de tinta a pingar para cima da alcatifa.»

..gosto!

talvez por ser desarrumado por natureza, sempre me fascinaram os atelies :)