Fui apanhado

Dizia-me em conversa. Não quero que me vejam a rezar. Ou melhor, prefiro que não saibam quando estou a rezar. Tu bem sabes – esclareceu sem necessidade alguma – que não é por pudor ou por vergonha, mas por não querer encontrar consolação na boa imagem que possa causar. É um exercício para a gratuidade e para limar a motivação pela qual estou com o Senhor.

(Fiquei a pensar na confidência deste jesuíta: não quer ser visto)

Alguns meses mais tarde, bastantes por sinal, contou-me com um humor desconcertante o encontro que tivera. O relógio de parede da cozinha marcava sete horas da manhã. Ainda era de noite, quando dois jesuítas se cruzaram inesperadamente ao pequeno-almoço. Prontamente, o outro perguntara-lhe: por aqui a esta hora, tão cedo? Vais viajar? Viajar?! – Surpreendeu-se o jesuíta que não queria que soubesse quando estivesse a rezar. Viajar?! Não, não vou viajar – finalizou prontamente com um tom seco. Ah! É primeira vez que te vejo tão cedo, raramente te vemos ao pequeno-almoço e quando te pomos a vista em cima, já a manhã vai a meio. Aquele dorme bem, é o que pensamos - dizia, acompanhado de um sorriso quase irónico.

Depois de ouvir esta descrição que ele me acabara de contar, não hesitei em ser requintado na observação e perguntei-lhe: o facto de aquilo que és não corresponder à imagem que as pessoas têm de ti, fez-te mossa? Mas, olha, acho que é óptimo sinal. Não tinhas dito tu que não querias encontrar consolação na boa imagem que possas causar nem que não soubessem quando rezas? Continua, porque está a resultar.

1 comments:

joaquim disse...

Precisava bem de ler isto.

Obrigado!

Um abraço em Cristo